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sábado, 11 de fevereiro de 2012

A LENDA DOS CEM


A LENDA DOS CEM

do pernambucano (São Bento do Una) Gilvan Lemos

Todos os capítulos iniciam-se com sueltos (pequenos tópicos) tirados de uma suposta publicação intitulada “O pernambucano” seção “Há um século”.As referentes a 1946,49,56,59,63,64 e 70, foram adaptadas de tópicos constantes no livro “Aos Trancos e Barrancos- Como o Brasil Deu no que Deu”, de Darcy Ribeiro. Os outros (1922, por exemplo) o autor “inventou”.

No 1ª capítulo vemos 2 capangas de Meneses assassinando Joca Correia(na verdade João Panta, filho da índia Nacha e do comerciante protestante Mardônio(que era casado com Benvinda). O crime se dá na presença de Pedro Correia (Peto, que é salvo na ocasião pelo seu padrinho Brás, também assassino, capanga de Meneses, que vai encaminhar o menino para ser educado noutro lugar),filho da vítima e neto do cacique Olímpio Picha,avô de Nacha, da fictícia tribo dos Xacuris.Os dois capatazes são homossexuais.Assim como o é também o mandante do crime, Meneses,chefe oligárquico do interior de Pernambuco.

O tópico que abre o livro já fala de norte-americanos que seqüestram crianças brasileiras para usá-las como cobaias em experiências científicas em Nova York. Uma característica de Gilvan: ele é crítico feroz do imperialismo ianque, representado neste livro por Mr. Rodber (que é gay) e sua gangue.

O autor não se curva aos que cultuam somente a forma nem faz concessão aos que preferem o enredo.Se ele emociona e empolga em “A Lenda dos Cem” (ed. Civilização Brasileira. 285 páginas. SP 1995) e nos faz pensar num filme de faroeste caboclo nordestino “antropológico delirante” que narra a saga de 3 gerações de uma tribo de índios pernambucanos, é porque expõe a violência, os crimes, o heroísmo e a impunidade que grassam neste estado do Nordeste há tanto tempo, quer seja no interior ou em Recife.

A aculturação indígena, a guerrilha, a luta pelo poder, o delírio, a dramaticidade, a miséria, vão rodopiando num torvelinho bem urdido que é a escrita do mestre Gilvan.

A narrativa é não-linear a saga dos Xacuris é narrada desde 1922 (cem anos de “independência”) até os anos 70, com a tribo esfacelada.

A “lenda dos cem” a que se refere o título quem conta é Olímpio, o cacique decadente: num tempo antigo os brancos vieram e selecionaram os cem jovens mais fortes e sadios dos Xacuris. Mataram o resto da tribo. Amarraram os cem ,como se fossem contas de um estranho rosário. Um escapou misteriosamente. Os índios foram suprir a mão de obra escrava que escasseou. Este que fugiu era protegido de Tupã. Voltou encantado e libertou os irmãos, reconduzindo-os ao lugar onde existira a tribo: arrasado e deserto. Num passe de mágica faz aparecer mulheres xacuris e uma plantação. Assim a tribo se recompõe. E é em nome desse Moquê que Olímpio lidera o que restou da tribo muito tempo depois e tenta enfrentar os americanos e o pessoal de Meneses que queriam as terras para seus negócios pessoais(minas e fábricas). As metralhadoras dos brancos vencem os Xacuris. Só escaparam Nacha, Antônio Panta (com quem ela se “casa”,já grávida de Mardônio), Pichá (que se junta ao bando de Lampião e Corisco e, já velho nos anos 60/70 vai participar de guerrilhas, onde morrerão Rodber e Meneses).

Gilvan separa os Xacuris em dois blocos: os que se embriagam e prostituem na cidade de Santana da Serra e os que ficam na aldeia: “Nacha se deslumbrara com as bolhas mutantes da gasosa,com receio até de desmancha-las, embora sabendo que as ingerindo mais se deslumbraria” (p.18)

A narrativa constantemente se utiliza do discurso indireto livre sem pudores em relação a palavrões ou vícios de linguagem: “punhetinha”, “cacunda”, “inda, “sustança”, “muito olhuda, boca sangrosa”. Há também neologismos como “somiticaria”(p.46) e “desvisível” (p.49)

Nacha é descrita como “casmurra” e tendo “olhos oblíquos”.

O autor é materialista, anticlerical e não perde um efeito cômico, mesmo quando o assunto é massacre indígena, ato sexual, desintegração da família, moralidade.Tudo explode em êxtase verbal crítico e recheado de humor negro que se misturam a “buchada” e carne de sol, casinhas de taipa,bodoque, juá, bacurau. Gilvan é classe média politizada: horroriza-se com o “jeitinho brasileiro” e o descreve com raiva e um certo cinismo. Clama por vingança e justiça.Os Xacuris viviam no vale do Iurubá,banhavam-se no rio Añun (“maternalmente acolhedor,o líquido adaptável ao corpo, morno na superfície, friinho nas profundezas, um frio morno, misturado 2-p.42). Viviam em casinhas simples, uma igreja(padre depravado e ladrão, que aparecia raramente), uma escola que não funcionava. Consideravam-se “pobres”.A única cerimônia que os unia aos antepassados era o Torém (ritual). “O coco se aparentava às danças dos antigos Xacuris” (p. 43). A maioria era analfabeta e não tinham registro da terra que o imperador demarcara (p.39).Estranhavam a ambição dos brancos(p.44).

Cita tribos do sertão/agreste de Pernambuco: Pankararus (de Tacaratu); Tukás (Cabrobó); Kambiwás (Inajá); Xucurus (de Cimbres); Atikuns (de Floresta); Fulni-ôs (de Águas Belas). Espoliados, descaracterizados, roubados vergonhosamente(p.50).Eis a crítica.

Joça Correia (João Panta, que fugiu da mãe, Nacha, e do pai indígena,Antônio- na verdade era filho de branco,Mardônio) vai ser criminoso e termina como Édipo: assassina o próprio pai sem saber. Meneses manda matar Mardônio,já velho, porque ele queria investigar o massacre dos Xacuris). A vítima teve seu pênis (imenso) cortado e enfiado na boca.

Ao se relacionar com uma prostituta gerou Peto, o que no início viu este pai ser morto a pauladas como um cachorro e que se vinga matando Meneses no final da trama.

A vida de Peto: Brás o deixa com um casal que o repassa para um professor (Nobre,por cuja filha, Lurdinha, Peto vai nutrir uma paixão não correspondida) que tem uma escola decadente no Recife. Peto passa num concurso público para ser funcionário da Previdência Social, depois de enfrentar a miséria no centro do Recife. Presencia o golpe militar de 64 e testemunha as barbáries dos anos de chumbo. Volta a Santana da Serra para vingar a morte do pai. Encontra Nacha, (quando é seqüestrado por Pichá, que, velho, se transformou em guerrilheiro/assaltante).A velha índia vê no rosto de Peto algo de Mardônio, e algo do próprio filho (o louro JOCA, João Panta/Correia, sobrenome que, ela não sabe, ele adotou ao olhar tal objeto na casa de Meneses).

Inocentado do crime por artimanha de Pichá, Peto volta ao Recife como herói, que se livrou do seqüestro, e casa-se com Geni, que ele não sabe, é sua prima,filha de Pichá.
 
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